
Hoje me aconteceu um negócio que se eu conseguir explicar para outra pessoa vou trazer o lado social de um sentimento subjetivo. O motivo de tudo pareceu ser simples: na sala de aula perdi meu lugar de estimação, a primeira carteira. Para mim tem um significado ímpar aquele lugar, comparado ao que já passei de minha vida, nunca ocupei um lugar desses, não me considerava um aluno tão dedicado a este ponto, da carteira ao fundo era o meu habitat. Na minha cabeça veio uma sensação parecida com algo que já havia passado antes, me preocupei em achar que estava enganado em pensar que ali poderia ser o meu lugar também. Pelo visto a pessoa que ocupou o lugar não se deteve tanto a esse problema: sobre o lugar ou minha frustração? Acabei remoendo memórias de tempos idos que sem querer voltam a cutucar o presente, será que meu papel irá sofrer mais uma vez um processo de minimização?
Quando era mais novo eu me criticava por não ter um comportamento tão próximo ao dos outros, extrovertido, simpático, comunicativo... nada mudou, talvez os que me conheçam mais saibam que não sou tão sério. A fase do “ficar de porre” está passando um pouco, voltou a sensação de que continuo o mesmo, e por mais que tente, dificilmente vou mudar, pois descobri que sou e faço assim com vontade, e nunca sentimos dificuldade em ser aquilo que realmente somos.
Acreditar nessa conversa toda não é fácil também, o preço sai caro por aceitar ser quem se é, mas o gosto é diferente. Esperei bastante da ciência, quem dirá das sociais, que a sociologia, a antropologia e a psicanálise me respondesse alguma coisa sobre timidez, parece que depois que se estuda tudo isso você se sente grande, maduro, um cara coeso com as ideias, mas que continua tímido.
Mas o mundo dos adultos é diferente, a euforia da adolescência já abaixou e a rebeldia agora faz parte do café-da-manhã, almoço e janta. Uma vez ouvi um papo de que o ser humano não era igual cachorro, se não ta legal podemos virar para trás e correr do que se deseja. Em alguma coisa me ajudou esse conhecimento todo sobre o social: descobrir que vivo no meio de um monte de gente parecida, foi um bem-vindo à sociedade com batizado, catecismo, crisma e resignação à crença.
Antes eu achava que precisava descobrir a sociedade que tivesse uma justaposição de seus valores, de tal forma que o meu direito de falar – de preferência em voz calma e tranqüila tivesse espaço, seria então uma chatice um monte de gente falando assim, daria sono o dia inteiro. Mas não é por isso que preciso correr com as palavras, falar mais que a língua. O problema é quando associam essa calma à ausência de voz, parece que podemos ser deixados para traz... Saber do coletivo é se questionar sobre a origem desse mal-estar. Uma psicanalista pode ouvir sua pessoa o bastante para – após o seu insight ousado com pitadas de auto-análise indicando que tudo passou, lhe garantir que “era apenas uma fase”, pois muitos de nós já passamos por isso. O trabalho de arqueólogo de sua mente é todo seu, mas é muito mais no coletivo e em você mesmo do que na figura do ouvinte institucionalizado que se pode descobrir algo.
Lembrei do meu avô, pai do meu pai, homem calmo, tranqüilo, não costumava atender telefone pois tinha problemas de audição, e timidez. Lembrei do meu pai, homem quieto, só abre a boca quando considera que o que dirá será útil a todos, herdeiro da timidez do meu avô. E eu, me questionando se tenho o “direito” de me sentar na primeira carteira.
Me senti livre para fazer diferente desta vez, percebi que ficamos mais quietos em situações que nos deixam menos confortáveis. No mundo dos adultos é diferente, sem querer me deram a liberdade de falar o que penso, um braço vai cair mas será importante. Tive acesso à esse mundo simbólico que nos colocam lá e cá dentro das relações, possivelmente esta timidez tenha data de nascimento e lugar de origem no ninho social, que não seja fruto apenas de algo psicológico.
O ser tímido neste caso não é apenas ser negativo a algo, é ter valores, que estes talvez não façam parte do perfil perdido pela vida normativa. Vou conversar sobre o meu lugar de volta, não vai ser tão ruim assim, mas é difícil mudar o rumo de uma educação, de homens que aprenderam a agüentar firmes e calados as situações, em que não falar não é simplesmente se abster de um ato, mas suportar o emprego, o trabalho, a vida como um destino irreversível.
É preciso fazer uma pesquisa para saber onde sentavam nossos pais durante o período escolar, se não é uma herança de família sentar no fundão, assim podemos perceber que nem todas ferramentas para se pensar a vida foram nos dadas e não cair no erro de internalizarmos condições petrificadas pelas relações sociais que são históricas, como a timidez.



